Transcendência – 1997

Acho que escrevi este texto depois de ter lido Brumas de Avalon… conhecem?

O destino da Terra e de seus habitantes concretiza-se aos poucos; e, assim como o tempo, perpassa meus olhos como uma nuvem mágica.
Os tambores, de dentro dos antigos e gigantescos templos, outrora recantos de idolatração, ressurgem nos sonhos das crianças do futuro, pelas mãos dos velhos Deuses.
Percebo como o azul dos céus e dos mares tomam conta de todo o meu ser, erguem-me de minhas quedas desajeitadas e contemplam meus passos para que não tropece outra vez.
O Sol, mestre de luzes, guia de todos os seres, mostra como os erros podem se esgotar em lições para esta vida e outras ainda por vir.
Ao lado dele, o vento sopra longe as falhas do mundo, de ontem e de sempre, para que não mais perturbem o expandir do espaço.
No horizonte, um fogo brando espalha-se pela superfície de um lugar encantado; um fogo que não queima, mas apenas ilumina a Cidade Perdida.
Ao cair da noite, quando a Lua, em toda a sua majestade, sorri para os seres vivos, tudo se fecha em um silêncio obscuro e a vida é repensada para a sua própria sobrevivência.
Depois, quando os primeiros raios dourados despontam no encontro sagrado entre os dois azuis da natureza, os seres das águas e dos ares se abraçam, bailando sob a ópera dos ventos e o murmúrio das ondas.
Meus pés permanecem fixos à solidez da Terra, mas meus olhos fecham-se e, ao se abrirem, estão dançando com as mais altas estrelas, rodopiando pelo infinito, com visões fantásticas do espaço. E assim enxergo tudo o que preciso para contemplar tais mistérios.
Em minhas mãos, o Fogo brando ganha vida; através dos meus dedos, irradio toda essa energia para que o mundo dela se alimente e com ela se engrandeça.
Então, como se essa loucura atraísse tempestades, uma chuva forte e densa lava meu corpo nu, purifica meu coração dos sentimentos escuros, enleva meu espírito, lançando-o para fora dos limites da carne.
A alma liberta brinca com as magias dos elementos da natureza, desfazendo-se em êxtase; flui, gira, flutua e voa e derrama-se, por fim, como uma cachoeira, em um rio de prazeres místicos.
Em seguida, o retorno ao mundo físico é doloroso; o simples contato entre as mãos, agora recobertas por tecido humano, arde, como se ali o Fogo Eterno ainda queimasse.
Os olhos não se adaptam aos limites que lhes cabem: querem saciar a sua curiosidade, explorando soltos os segredos das alturas.
O corpo libera suas forças para erguer-se e movimentar-se, trêmulo, como que congelado até a última gota de sangue, ainda preso à Terra, como se nunca houvesse estado em outro lugar, obrigado a reaprender a arte do equilíbrio.
Alma, coração e mente interconectados através do sangue e dos ossos, protegidos pela carne flácida e pele sensível, aprisionados nas entranhas, no âmago do ser humano.
Afinal, depois de tanto, o descanso e o sossego são trazidos por um súbito desmaio, mas as lendas da antiguidade sobrevivem nubladas em minha memória.

Advertisements

2 thoughts on “Transcendência – 1997

  1. Flavia,
    Saudades!! Lindo demais o “Transcendencia”! Ainda não te conhecia nesta época mas dá pra sentir que esta é voce!
    Com carinho
    Kity Maria

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s